Se você já perguntou a alguém no posto "álcool ou gasolina?", provavelmente ouviu de volta: "se o etanol estiver até 70% do preço da gasolina, compensa etanol". Essa é a regra dos 70% — a heurística mais repetida no Brasil para essa decisão. Ela existe porque o etanol rende menos quilômetros por litro que a gasolina, e 70% é uma estimativa de quanto essa diferença de rendimento costuma representar, em média, entre os carros flex. Neste artigo, explicamos de onde vem esse número, como aplicá-lo corretamente e por que "em média" é a palavra mais importante da frase anterior — o motivo está detalhado em Por que a regra dos 70% não serve para todo carro.
O que é a regra dos 70%
A regra dos 70% é um cálculo rápido: divida o preço do etanol pelo preço da gasolina no posto. Se o resultado for 70% ou menos, o etanol tende a valer mais a pena. Se for maior que 70%, a gasolina tende a compensar mais.
Exemplo de conta: gasolina a R$ 5,89 e etanol a R$ 3,99 → 3,99 ÷ 5,89 = 0,677, ou 67,7%. Como está abaixo de 70%, a regra indica etanol.
Por que essa conta funciona (em teoria)
O etanol tem menor densidade energética que a gasolina — por isso, o mesmo carro roda menos quilômetros com um litro de etanol do que com um litro de gasolina. A regra dos 70% assume que essa perda de rendimento gira, em média, em torno de 30%. Se o etanol custa até 30% mais barato (ou seja, até 70% do preço da gasolina), a conta de custo por quilômetro tende a empatar ou favorecer o etanol.
De onde vem esse número
Não existe uma norma da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) ou do Inmetro que defina oficialmente "70%" como o número certo — é uma heurística popular, consolidada ao longo dos anos de uso de carros flex no Brasil, que aproxima a perda média de rendimento do etanol em relação à gasolina. Por ser uma média, ela representa bem o comportamento de muitos carros — mas "muitos" não é "todos", e é exatamente aí que a regra começa a falhar (ver seção sobre o limite da regra, abaixo).
Como aplicar a regra dos 70% na prática
- Veja o preço da gasolina e do etanol na bomba (ou no app do posto).
- Divida o preço do etanol pelo preço da gasolina.
- Multiplique por 100 para ter a porcentagem.
- Se o resultado for menor ou igual a 70%, etanol tende a compensar. Se for maior, gasolina tende a compensar.
Erros comuns ao aplicar a regra
- Comparar preços de postos diferentes. A regra só funciona comparando os dois combustíveis no mesmo posto, no mesmo momento — preços variam de um posto para o outro na mesma cidade.
- Ignorar o tipo de gasolina. Gasolina aditivada costuma custar mais que a comum; usar o preço errado na conta distorce o resultado.
- Assumir que o resultado é definitivo. A regra dos 70% é um ponto de partida rápido, não uma resposta final — ver a seção seguinte.
A regra dos 70% muda com a mistura de etanol na gasolina?
Sim, indiretamente. A gasolina vendida no Brasil já é uma mistura — ela contém um percentual de etanol anidro obrigatório por regulação do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética). Esse percentual mudou várias vezes ao longo dos anos e, em julho de 2026, o CNPE aprovou o aumento temporário desse percentual de 30% para 32% (a chamada gasolina E32), medida com vigência de 180 dias e possibilidade de uma prorrogação por igual período. Isso não muda a mecânica da regra dos 70% em si (que compara gasolina vs. etanol puro na bomba), mas é um lembrete de que a composição da própria gasolina é uma variável regulatória que muda com o tempo — mais um motivo para tratar "70%" como uma referência, não uma constante fixa.
O limite da regra: ela é uma média, não uma medição
A regra dos 70% assume que todo carro perde a mesma proporção de rendimento ao trocar de gasolina para etanol. Na prática, isso varia por modelo, motorização e ano — alguns carros têm um ponto de equilíbrio real mais próximo de 69%, outros mais próximo de 72% (o Chevrolet Onix 1.0, por exemplo, tem um dos pontos de equilíbrio mais altos que já cadastramos). A diferença parece pequena, mas em um tanque cheio, ao longo de um mês, ela afeta a conta.
É por isso que o Tanque Ideal não usa a regra dos 70% como resposta — ele usa como ponto de partida, e refina o cálculo com o consumo real do seu veículo quando esse dado está disponível. Não é uma questão de a regra estar "errada": é que uma média nacional nunca vai ser tão precisa quanto o número do seu carro específico. O próximo artigo desta série, Por que a regra dos 70% não serve para todo carro, mostra essa variação com dados reais de veículos.